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Les utopies apparaissent comme bien plus réalisables qu'on ne le croyait autrefois. Comment éviter leurs réalisation définitive?
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Essa citação de Nicolas Berdiaeff dá um bom início do que podemos esperar do romance de Aldous Huxley. Uma utopia que, afinal de contas, nem o é tanto assim, pouco tempo depois.

O ano é 632 d. F.,
depois de Ford. Nessa sociedade, todos vivem sob o imperativo da felicidade. São divididos em castas:
Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ípsilons. As duas primeiras, compostas de indivíduos únicos, mas as restantes passam por um processo que divide seus embriões e produz cerca de oitenta pessoas iguais. Tudo isso pra que, trabalhando juntos, haja um sentido de identidade entre eles. Aliás, esse nascimento e criação dos indivíduos é bastante detalhado no livro; esses processos que servem como base para a "geração" da nova sociedade, onde o sentimentalismo é deixado de lado e as técnicas e vida especializada é o que mais importa.
Não existem relacionamentos duradouros. Como já diziam os Tribalistas,
"eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem!". Todos são orientados a terem vários parceiros, e aqueles que não obedecem essa regra, ou mesmo a estranham, são escanteados. A promiscuidade é regra para todos. O romance de Huxley narra um futuro sem famílias, democracias, cristianismo ou arte.

E esta nova civilização, baseada em condicionamento, com frases e respostas prontas pra tudo, traz também um personagem presente em quase todas as situações e acontecimentos da história: o SOMA, uma espécie de droga que serve como ponto de fuga para os problemas, angústias, anseios, tristezas, enfim, as coisas sentimentais da vida pessoal. Qualquer dúvida e incerteza é rapidamente aplacada com o consumo dessa "pílula da felicidade instantânea", sem efeitos colaterais e perfeita, vindo na dose certa para o seu problema. Há um curto intervalo de tempo entre o desejo e sua satisfação.
A trama se desenvolve quando Bernard se sente incomodado com sua posição e em uma viagem de "turismo", vai conhecer a Reserva dos Selvagens, onde "tribos" de indivíduos ainda vivem segundo os tempos antigos. As pessoas envelhecem; não existem as cirurgias de embelezamento; os laços familiares são presentes; fica-se feliz, mas também ficar triste é normal, e ninguém precisa recorrer ao SOMA; as mulheres cumprem sua função de reprodutoras e os bebês realmente
nascem lá; ainda se pode falar do passado, aliás, deve-se falar e aprender com o passado.
Lá, Bernard conhece Linda, uma mulher que se perdeu havia muito tempo lá e já se acostumara a viver como eles, e seu filho John. Bernard resolve levá-los para a "civilização" pra mostrá-los como era algo maravilhoso! Mas não deu muito certo. Linda passou a viver mergulhada no SOMA, até vir a falecer, enquanto o John, tratado sempre como "Selvagem", passa a trazer fama a Bernard, que o exibia como se fazem com os animais no circo. E as pessoas queriam ver. Como era um selvagem? Como seria alguém que vivia lá fora? Tão longe do que é "certo"?
Mas John não consegue se acostumar com tudo aquilo. Tem algo errado! Onde estão as vontades? Os desejos? As lágrimas? As gargalhadas? As lutas? E as conquistas? Quando esse povo civilizado deixou de ser humano? E John resume tudo em um incrível diálogo no final do livro:
"Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado [...] reclamo o direito de ser infeliz!"
Admirável Mundo Novo é um clássico sobre o controle, o futuro e a liberdade, e é de se impressionar que uma ficção publicada em 1932 em tão pouco tempo beira à realidade. Quais são os
SOMAs dos nossos dias? E o processo de alienação, com a televisão, cinema, músicas ou revistas? E a nossa cultura fast-food, buscando sempre prazeres imediatos? Nos dizem o que vestir, com quem andar, o que falar, o que assistir, o que comer, moldamos nossos corpos, casamos e descasamos, transamos sem nem perguntar o nome e nossa concepção de amor se resume às comédias românticas. E o pior: não nos incomodamos! Estamos acostumados. Cauterizados.
Levantemos! Façamos alguma coisa. Sejamos sustentáveis. Sejamos gentis. Valorizemos nossos pais. Valorizemos bons livros. Arte. Poesia. Vamos a museus e galerias. Vamos, de fato, buscar conhecer a pessoa que beijamos. Casamento é coisa séria! Chorar e cair, mas levantar e conquistar o direito de poder rir de novo! Talvez a sociedade utópica criada por Huxley não seja mais tão utópica assim. E aí? O que você tem feito? Vai se acostumar com o SOMA, ou gritar por LIBERDADE?